Sentia-se cansada. Nem sabia de quê. Fazer uma mala não dá
trabalho nenhum, ou quase. E colocar a vida numa mala, também deveria ser
igualmente fácil. Descobriu rapidamente que o processo decorria em sentido inverso: colocar tudo, absolutamente
apenas tudo o que transportaria consigo para lá daquela porta, revelou-se um
longuíssimo processo de exclusão, processo que se prolongava penosamente em
cada objecto, em cada memória a ele associada, em cada momento que
longinquamente exalava ainda uma réstia de alguma memória. Finalmente,
fechou-a. Nem sequer estava demasiado cheia. Sorriu com melancolia. Teve um
momento de lucidez claro como a neve e igualmente gelado e vivo ao perceber que
estava errada pois transportava ainda assim demasiado entulho – afinal, quando
atravessasse a última das portas, não levaria absolutamente nada na mala, a própria
mala seria desnecessária. E cansada, sentou-se por momentos em cima dela sem
pensar em nada. Vazia. Esvaziando-se.
Isto é meu e não consigo publicar aqui, será que sou capaz de comentar? Ironia suprema!
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