sexta-feira, 27 de julho de 2012


Sentia-se cansada. Nem sabia de quê. Fazer uma mala não dá trabalho nenhum, ou quase. E colocar a vida numa mala, também deveria ser igualmente fácil. Descobriu rapidamente que o processo decorria em  sentido inverso: colocar tudo, absolutamente apenas tudo o que transportaria consigo para lá daquela porta, revelou-se um longuíssimo processo de exclusão, processo que se prolongava penosamente em cada objecto, em cada memória a ele associada, em cada momento que longinquamente exalava ainda uma réstia de alguma memória. Finalmente, fechou-a. Nem sequer estava demasiado cheia. Sorriu com melancolia. Teve um momento de lucidez claro como a neve e igualmente gelado e vivo ao perceber que estava errada pois transportava ainda assim demasiado entulho – afinal, quando atravessasse a última das portas, não levaria absolutamente nada na mala, a própria mala seria desnecessária. E cansada, sentou-se por momentos em cima dela sem pensar em nada. Vazia. Esvaziando-se.

Um comentário:

  1. Isto é meu e não consigo publicar aqui, será que sou capaz de comentar? Ironia suprema!

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